Ontem eu e uma amiga (que aqui chamarei de Ana) conversávamos sobre instabilidade emocional. Ana me confessou que tem certo receio de entrar em ambientes com muitas pessoas, pois nunca se sente bem-vinda. O ritmo da respiração se altera, a mente se enche se negatividade e, mesmo com amigos íntimos, ela acha difícil não pensar que será julgada. Eu não sabia bem como aconselhá-la, então tentei entender por que eu não me sentia desta forma.

Observando mais atentamente o meu próprio comportamento, percebi que fico seguro em ambientes cheios porque tenho minhas raízes bem fixas. Eu lembro constantemente dos meus pais, da minha infância, das causas e consequências que me construíram do jeito que sou. Por isso comentários negativos não me atingem. Por isso passo pelas piores situações sem me esquecer de quem eu sou de verdade. Já a Ana, que cresceu sem a presença de um dos pais, não reconhece muito bem as próprias raízes. Por isso ela se confunde quando a julgam. Ana acaba se questionando sobre a veracidade da própria identidade.

Outro traço desta instabilidade emocional se originou na adolescência, quando ela fez treze anos e cresceu o triplo das outras meninas. Enquanto as colegas tinham corpinhos miúdos e magrelos, Ana atingiu em meses a altura que tem hoje. Ela não se sentia confortável com o próprio corpo, não era parte completa do grupo, não conseguia se entrosar. Enquanto as meninas davam nomes às Barbies, os hormônios de Ana já borbulhavam embaixo da roupa: virou mulher, como ela mesma disse, “antes do tempo”. Mas por que é importante falar disto?

Eu acredito em Karma. É aquela velha história de idas e voltas: tudo o que eu faço de ruim voltará pra mim em algum momento; e tudo o que eu faço de bom retornará numa mesma medida. E acredito também que nossa vida pode ser representada por uma simples linha do tempo:

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nascimento                       crescimento                            envelhecimento                           morte

É a mesma linha para todos os seres. Algumas são cortadas antes, porém nenhuma ultrapassa o último estágio. Todos nós inevitavelmente começamos ali e terminaremos do outro lado. Há um limite que não se pula, ainda que nos esforcemos de todo jeito. Ao longo desta linha acontece a nossa vida. Conhecemos pessoas, traímos e somos traídos, ferimos e somos feridos, tememos e colocamos medo. Nem sempre o Karma vem num mesmo estágio da vida. Às vezes roubamos na infância e só nos roubarão às vésperas da morte. Outras vezes amaremos intensamente, mas só nos corresponderão após muito crescimento.

Todo o passado da Ana não pode ser mudado. Está escrito (ali entre o nascimento e o crescimento) do jeito que foi. É como é. Ana cresceu sem um dos pais, ficou alta muito cedo, nunca se entrosou com um verdadeiro grupo de amigos. Ainda que ela idealize tantos outros passados, tantas outras vidas perfeitas, isso que foi jamais mudará. A linha do tempo de Ana, por mais triste que seja, é a história dela e de mais ninguém. Hoje ela carrega certos problemas emocionais, apenas porque se esquece da própria linha do tempo. Ana acha que precisa de uma vida como a minha para ser mais feliz. Mal ela sabe que não colheu os frutos ainda, porém chegará o seu momento.

Eu acredito que a instabilidade emocional é isto: um esquecimento da própria linha do tempo. Quando percebemos que tudo aconteceu por uma razão, logo reconhecemos que a falta de amigos levou ao amadurecimento precoce. Reconhecemos que a introspecção levou ao amor pela leitura. Reconhecemos que a ausência de um dos pais contribuiu para o amor incondicional ao próprio filho. Nós somos isto: consequências de causas anteriores. Toda ação tem uma reação igual e contrária, não é o que dizem? Só não sabemos a data do retorno. Mas creia: em algum estágio desta linha, a reação chegará.

Queria publicar esse texto para acalmar os corações aflitos. Queria relembrar que a segurança nasce da própria insegurança; que a amizade verdadeira nasce das quebras de confiança; que o amor incondicional nasce da não repetição de padrões de relacionamento, portanto não reclame de seu passado. Agradeça pelo que foi, pois o ontem te transformou no que é hoje. Acredito, pois, que não foi um acaso a Ana ter amadurecido cedo demais. Aquele era o caminho para que ela se tornasse uma das mulheres mais maduras de sua idade daqui a alguns anos.

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Quando você passar por três, quatro ou cinco quedas seguidas, não desanime. É apenas uma indicação de que haverá três, quatro ou cinco ascensões futuras.

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