“Oii, eu sou a Beatriz! Tenho 9 anos. Eu sou nova por aqui, então acho melhor me apresentar… por onde eu começo? Será que falo da minha vida? Não, melhor não. Vou falar do Ted, a minha tartaruguinha. O Ted vive num aquário na estante do meu quarto e eu dou comida pra ele todos os dias. Eu puxo a cadeira de baixo da escrivaninha, subo nela e dou comida. Não dá de outro jeito porque é alto demais. O meu quarto ele é roxo como eu sempre quis. Eu amo a cor roxa.

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A minha mãe fica me põe na cama de noite, antes de dormir. Quase todas as noites ela escolhe um poema das escritoras favoritas dela e lê pra mim. Ela ama muito a Cecília Meireles e a Clarice Lispector. Nem sempre eu entendo, mas aí ela me explica de novo e de novo. Às vezes eu durmo sem entender, mas não tem problema. Minha mãe disse que certas coisas só se sabe quando é adulto.

Minha mãe se chama Isabela e a minha avó é Laurita. Mamãe passa o dia inteiro em casa fazendo comida, pintando no escritório e me pondo pra dormir. Já a vó Laurita não faz nada. Ela só vem me visitar vez por outra e me conta histórias da época do “Sexo, Drogas e Rock’n Roll“, que eu ainda não sei bem o que significa. Mamãe não gosta. Mas a vó Laurita sempre conta. Eu também já ouvi a mãe falando disso, então não entendo porque não devemos falar. Os adultos são meio estranhos, na verdade.

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Eu não enxergo muito bem sem óculos desde antes de eu nascer. Por isso uso um óculos grande, de araminho dourado, que mamãe escolheu pra mim. Eu adoro ele. Mas tento não usar na escola porque os meninos não gostam. O que eu mais amo fazer quando estou em casa é sair pra andar de bicicleta, passear pelo bairro e alimentar o Ted. Várias vezes eu vejo uns acomntecimentos por aí pela rua e não entendo. Aí pergunto pro meu pai e ele tenta me explicar.

Ah, o papai, não posso deixar de falar dele. Ele trabalha com um caminhão e fica o dia inteiro fora. Só chega de noite todo embarrado e vai correndo tomar banho. Ele tem sorte que a mamãe não briga com ele. Quando fico suja, tem sempre aquela mesma cara e o “em casa a gente conversa“, que ela vive falando. Por isso eu evito me sujar por aí. Tem um bosquezinho umas duas ruas atrás que eu gosto muito de ir. Eu subo nos galhos da árvore e fico lá em cima olhando tudo. Parece que o mundo é todinho meu.

Amanhã começa o primeiro dia do terceiro ano. Depois passo aqui pra contar como mais. Abraço!

Ah, o Ted mandou um oi também!”.

‘Crônicas de Beatriz’ é um projeto textual experimental. Beatriz é uma personagem brasileira fictícia que conta (através de pequenos textos) sobre o próprio cotidiano, a família, e o comportamento humano. Pelo olhar infantil ela observa aspectos da sociedade, se questiona, e procura a opinião adulta para tentar compreender. A essência das crônicas, porém, não se encontra no que dizem os adultos. Mas no modo como Beatriz enxerga a realidade ao seu redor. Este, sim, é o grande aprendizado.
O objetivo deste projeto é levantar uma discussão sobre a importância do que dizem as crianças. Pretendo, também, revelar certas questões do “pensar” adulto que eu discordo completamente. Acredito que as respostas pros problemas cotidianos não estão nas discussões, embates, ou nas brigas levianas. Mas na ingenuidade da criança que olha tudo de fora.
Seja bem-vindo ao universo gigantesco da pequenina Beatriz.
– Gean Zanelato.

12 Comentários

  1. Gostei do projeto, e vejo nele um grande desafio pessoal. Lendo o texto, é inevitável perceber que se trata da tentativa de um adulto de enxergar o mundo pela perspectiva de uma criança. De fato, o convite velado é infantil, os períodos fazem lembrar os de uma criança, mas a perspectiva, essa maneira simples de ver o mundo e dificílima de imitar, não é de uma criança. Eu não sei como você poderia fazer isso com a fidelidade e a inocência de uma.

    Se me permite contribuir com um relato, certa vez um primo meu veio nos fazer uma visita e trouxe seu filhinho, de uns 4 anos no máximo. Eu adoro crianças, porque não preciso ficar com os adultos quando elas estão por perto, e principalmente porque eu não as temo de jeito nenhum, então fiquei contente de ter um gurizinho daquele tamanho brincando ali no quintal. Ele brincava com dois carrinhos que trazia para todo lado, e eu me aproximei dele e disse “oi! Sabia que eu sou seu primo?”
    Ele ficou me olhando com aquele ar de desconfiança misturada à curiosidade.
    “É verdade, eu sou seu primo”, continuei. “Eu também sou primo do seu pai. Olha só: aquela ali é minha mãe. Ela é tia do seu pai. E também é irmã do seu avô!”
    O menino estacou por uns segundos, processando a informação. Depois correu para perto do pai e largou a pérola “pai, eu ainda sou seu filho?”

    Muito mais que hilário, é divinal, porque evidencia a sensibilidade arguta que absolutamente toda criancinha tem, pois lhes falta a malícia dos espelhos. Elas são todo inteligência.

    Guardei essa por dias, pensando nisso sempre que me vinha algum problema qualquer, a fim de tentar imitar tanta sagacidade para responder minhas próprias perguntas. Não sei se dá para imitar, de modo que, repito, vejo no seu projeto um grandioso desafio. É evidente que a perspectiva de Beatriz se trata de uma mais crescida, mas ainda assim, se bem entendi, sua busca é pela ingenuidade esperta da infância, como a desse meu priminho. A questão a ser respondida, se me permite agora a contribuição derradeira, é: o mundo da criança pode ser como um adulto pensa que seja, ou a perspectiva em questão é tão desconhecida para o adulto quanto o é para a criança? E mais: se você, adulto, puder enxergar a tudo como uma eterna novidade, apesar de tantas memórias que carrega — quase como se fosse inútil lembrar-se —, não seria essa perspectiva da mesma natureza ingênua da de uma criancinha?
    Finalmente, proponho um exercício: observe coisas velhas, conhecidas: se você conseguir enxergar algo novo ali, que jamais tenha notado, poder-se-ia dizer que há aí uma criança descobrindo o mundo? Eu diria que sim.

    Forte abraço, boa sorte com o projeto e me perdoe se pareci atrevido. o/

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    1. Que incríveel!! Ahhh! Adorei, Lubrese, eu também considero um desafio pessoal enormeee! O que propus a mim mesmo é tentar me relembrar com 9 anos, como eu me portava, falava e agia diante das pessoas. Mesmo que seja uma meta inatingível, eu quero buscar essa inocência até pro meu próprio desenvolvimento pessoal! É outro daqueles exercícios pra me manter no presente, respirar conscientemente e apreciar a simplicidade da vida… ❤ No mais, eu acredito que todos nós já fomos crianças e que a nossa sensibilidade é a criança do passado que ainda vive no nosso anterior…. eu quero acessá-la novamente para torná-la mais presente no meu cotidiano!

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  2. Já amei a Beatriz! ❤
    Também gosto muito da cor roxa.

    Esse projeto é muito interessante, parabéns! Dar voz à Beatriz narrabdo fatos cotidianos não deve ser fácil, pois manter a visão e inicência de uma criança é forçar uma volta à nossa infância e ver o mundo de maneira diferente.

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