Boa noite, dorme bem e que os anjinhos te protege” era como minha mãe me dizia sempre antes de dormir. Eu era criança… ou adolescente. Bem, talvez eu tenha dormido com beijinhos de boa noite até os meus 14 anos. Ela dizia isso, me cobria e apagava a luz. Então eu sabia que estava protegido e podia dormir em paz. Bons tempos.

Nós somos de origem pobre. Tanto os meus nonos (pais do meu pai) quanto os meus avós (pais da minha mãe, descansem em paz) eram fumicultores. Coincidência? Eles até eram da mesma cidade, desde crianças. Ambos de famílias grandes, muitos irmãos, todos trabalhando desde cedo. Meu pai, o mais velho, era um dos que mais sofria pelo que eu sei. Ele se esforçava tanto na roça, mas  não tinha “saco” pros estudos. Aí um dia, depois de apanhar de vareta na escola, ele decidiu ir embora. Passou a trabalhar e não parou nunca mais. Ele fez só até a quarta série, mas é um homem muito inteligente. Ético, honesto. Eu o admiro muito.

Já a minha mãe tinha o dobro de irmãos: uns nove. Meus avós eram pobres também (novas) e precisavam dos filhos pra plantar, colher, cozinhar, tratar dos bichos, lavar a área e todo o resto. Minha mãe até se divertia nos bailes da época. Foi num deles que ela conheceu meu pai. Aí depois se casaram, moraram com meus nonos, construíram a própria casa e eu nasci. Em 19 de junho de 1997 (sim, daqui 4 dias faço 21). Eu lembro pouco da minha infância. Eu lembro dos meus pais serem fumicultores e eu ter vergonha de contar pros meus amigos. Eu lembro de mentir que ia passar férias “no campo” quando precisava ajudá-los no final do ano. Eu lembro de me sentir deslocado não só por ser gay, mas “o caipira” do grupo (ainda que ninguém soubesse).

E eu me lembro de ir dormir com um beijinho de boa noite. Da voz suave da minha mãe, do carinho no cabelo, do beijo na testa e aquele amor nos olhos que só quem vê sabe. Lembro que era mágico. Eu ouvia “Boa noite, dorme bem e que os anjinhos te protege” sem saber se estava certo ou errado. Também sem saber da origem dos meus pais. E ainda assim sem notar erros, sem corrigir, sem retrucar. Só ouvia e agradecia. Eu sabia, mesmo sem saber, que, caipira ou não, eu era sortudo por ter uma mãe.

Não revire os olhos pros que sabem menos. Eles sabem menos.

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5 Comentários

  1. Origens…elas contam mais da gente do que pensamos. Dúvidas, elas ajudam formar nossas certezas. Sou caipira também, meu pai conta com sátira que fez 4 vezes a primeira série, nunca passou, tinha que parar pra ajudar na roça, ajudar os pais criar os irmãos. Novos tempos e realidades, não diria pior e nem melhor. Novos só isso.

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