Toda quarta-feira eu me encontro com uma amiga e passamos a noite conversando. Não há nenhuma razão em especial, só a troca de um bom papo entre nós dois. Ela me fala sobre o dia de trabalho, eu conto do livro que comprei, aí do nada mergulhamos fundo num assunto qualquer. Geralmente começa com “preciso fazer uma chave nova” e ela diz “você já parou pra pensar numa chave? Olha que louco”, e as próximas quatro horas se transformam num debate sobre a relação do objeto chave com todas as antigas civilizações.

Isso tem nome: abstração. Uma operação intelectual em que o objeto de reflexão é isolado dos fatores que lhe são comumente relacionados na realidade. Quando fazemos isso, a chave de metal que usamos para abrir portas perde o seu sentido fixo. Surge a pergunta: “Mas o que é uma chave?“, e passamos a enxergá-la como um pedaço de metal, que antes de moldada era um minério, que antes estava embaixo da terra provavelmente desde o surgimento do planeta há 4,6 bilhões de anos. É uma loucura.

Percebo que isso ocorre muito com a obra de autores como Clarice Lispector. Depois de um olhar abstrato da autora, objetos comuns como o ovo de cozinha são inteiramente repensados. “De repente olho o ovo na cozinha e vejo nele a comida. Não o reconheço, e meu coração bate. A metamorfose está se fazendo em mim: começo a não poder mais enxergar o ovo. Fora de cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo não existe. Já não consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem força de acreditar, estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele me foi adormecendo”, escreveu ela no clássico conto “O Ovo e a Galinha”

Em outro clássico, “Paixão Segundo G.H”, a personagem olha uma barata até o bichinho perder seu sentido. Deixa de ser o esteriótipo de animal repulsivo e torna-se o outro. Caem os filtros e camadas construídos pela sociedade e Clarice passa a ver com um olhar infantil, inaugural, como quem vê pela primeira vez. Não é diferente de uma criança que pergunta: “Mas por que esse bichinho é diferente dos outros?” e cabe à mãe dar uma explicação que nem ela sabe. Pois foi ensinada a ter uma visão fixa baseada nos valores impostos por um estado, uma cultura familiar, um modo de viver.

É esse o olhar que nos falta. Nos falta olhar para os dois lados da rua e lembrar que há pessoas dirigindo os carros. Nos falta perceber que as árvores na beira da estrada já estão plantadas desde antes de nascermos. Nos falta perceber que nossos objetos pessoais demorarão outros cem anos até se decomporem após a nossa morte. Mas esquecemos. Estamos tão hipnotizados para entrar dentro de casa, que esquecemos da chave girando entre os dedos. As texturas, cores, sabores, vozes e cheiros trocam de lugar com o borrão da pressa. Nada mais importa. Só chegar no horário certo.

Quando aprendermos a abstrair certos objetos do cotidiano, estaremos mais perto de abstrair os nossos próprios pensamentos, nossas escolhas e as nossas ações. Perceberemos que todo pensamento isolado tem causa e consequência. Perceberemos que toda ação gera um resultado bom ou ruim, portanto é importante fazer a escolha certa. Quando enxergarmos cada coisa como realmente é saberemos quem somos de verdade. Enquanto isso, as nossas vontades, desejos, apegos e aversões são só produtos do local e tempo histórico onde estamos inseridos. Enquanto isso somos só borrão.

Fez sentido? Talvez eu precise reavaliar alguns argumentos…
sorte que amanhã é quarta-feira.

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