É uma história comprida. Talvez nem tanto. Não se sabe. Mas tem capítulos, personagens, quedinhas do cavalo, dias de glória e plot twists. Tem trechos fáceis de ler, esses passam rápido… Já outros são mais complicados, é preciso consultar dicionários, rever as letrinhas, cansar os olhos. Aí demora… parece que não vai acabar nunca.

A vida não é livro conservado eternamente na estante. É um livro aberto sobre uma colina, por onde passa sol, chuva e vento. As páginas balançam e se rasgam, a tinta derrete e escorre, o papel amolece e remolda. Nem mesmo as frases mais duras, os diálogos mais complexos, os finais mais perversos sobrevivem à ação do tempo.

Parece que o gênero da vida se redefine a cada fase. Começa com romance, vai pra drama, passa por terror, erótico, suspense e cult. Há gêneros que duram centenas de milhares de páginas. É um tédio. Mas quando menos esperamos, uma surpresa: a mocinha conquista a coroa, a bruxa troca de caminho, o herói derrota o bandido. Alerta, eu repito: tudo pode ser reescrito.

Este é um daqueles livros que não fica previsível. Até parece, algumas vezes, que dá pra adivinhar o final. Mas só porque comparamos com outras leituras. Esta é uma história única, incomparável, com infinitas possibilidades de desdobramentos. Ainda que não dê pra antecipar, é possível seguir pistas, observar os movimentos, escolher por onde ir. Nesta história, como nas outras, também existem dois caminhos.

Arrisco-me a escolher um título para esta história indefinível: A Resiliência. Ou, em outras palavras, a capacidade de transformar sem deformar. Disso que se trata. Eu diria que esse livro é sobre passar pelos movimentos incontroláveis da existência, os traumas dos erros, os deslumbres das vitórias, as dores das perdas, as exclusões extremas, sem nos perdemos de quem somos de verdade.

Pois o livro da vida, apesar de todas essas diferenças, ainda é um simples livro. Que possui capa, papel e tinta. Não importa se conta a história de uma rainha, de um médico, soldado ou balconista. Ao final da última página todos serão guardados no mesmo lugar. Desde os clássicos mais grossos aos fininhos esquecidos. Vão para uma estante de canto sem graça nem cor. Mas que é relembrada a cada visita, cada vela acendida, cada vasinho de flor.
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