No ano passado eu acertei que escreveria um livro. Já tinha um projeto maior em andamento, mas até interrompi por isto. Foi um daqueles chamados “momentos de inspiração”. Decidi que devido às lições que eu aprendera nos últimos meses – seja por deixar a casa dos meus pais, terminar um namoro, ou me decepcionar com o job dos sonhos –, eu escreveria um pequeno livro sobre a vida aos 20 anos. Uma coletânea de crônicas de nome: Jardim de Ilusões.

Pois bem. Acertei preço de capa: R$ 29,00 nos três primeiros meses, R$ 25,00 depois, 64 páginas, uma crônica por página… terminamos a tramoia, beijo, obrigado, tchau. Pronto. Agora meu projeto dependia só de mim. Mas foi fechar a porta do quarto e olhar pro computador que eu percebi um problema: não consegui mais escrever. A princípio meu prazo era curto, eu pretendia lançar até novembro. Aí pedi um time extra… depois mais um… mas a essência do livro, por azar, perdeu-se no ar. Foi-se embora de mim sem nem se despedir.

Eu até escrevi duas ou três crônicas depois, mas textos horríveis. Curtos, picados, sem reflexão. Deus me livre publicar aquilo. Então cancelei a ideia e voltei para o projeto anterior. Os acertos de valores, preços, páginas, formatos, se esvaíram totalmente da minha mente. Não ficou rancor. Problema foi que, ao abrir a porta do quarto de novo, as ideias todas voltaram.

Está tudo relacionado com as minhas intenções por trás do que eu faço. São elas que governam a minha vida e determinam os resultados. Quando surgiu a ideia inicial do livro, o meu desejo era de registrar este momento da minha vida. Só isso. Queria contar em texto sobre as bebedeiras, traições, boletos, paixões e, sobretudo, ilusões da idade. Queria que nos meus cinquenta anos, eu pudesse revisitar não só as fotografias, mas as lembranças vívidas e sensações que o texto guarda.

Foi só eu pensar no dinheiro: “quanto eu ganharia com cada um?”, “quanto daria pra juntar?”, “Não vejo a hora de começar a receber”, e minhas intenções mudaram. Já não me importava mais o registro, pois o ego sussurrava ao pé do ouvido. Ele dizia: “Você vai ganhar dinheiro, não é ótimo?”, “Já pensou se virar best-seller?”, “Eles vão te entrevistar e tudo”. Com isso o meu canal criativo se fechou. O Universo notou as minhas intenções e me impediu de produzir. Retirou de mim meu talento mais puro.

O Universo percebeu – desejando que eu percebesse também – que eu precisava me despir primeiro deste personagem, o Escritor, pois ele não pode vir à frente do ser. Ele não deve se sobrepor a mim. Nunca. É apenas uma máscara que me representa em seletos momentos. Quando eu quero ser o Escritor, a minha essência desaparece, fica oculta. Junto com ela somem as ideias, os sentimentos, a própria luz interior. Resta apenas uma carcaça que escreve, que vive para escrever, que ama escrever.  Mas que não ama nada além nem o próprio ser. É um sorriso no vazio.

Terminando a reflexão, voltei ao computador sem o compromisso de escrever nada. Sem imaginar contratos, sem idealizar sucessos, sem pensar nas noites de autógrafos. Estralei os dedos, olhei pra tela e as lembranças dos meus 20 anos começaram a fluir pelas minhas digitais. Mas fluir intensamente. Fantasmas das risadas, dores profundas, abraços, conversas, vidas. Este sim sou eu. Este que escreve e este que é escrito. Estou registrando o meu andar pelo mundo. Desvendando segredos, criando minhas teorias, revelando novas ilusões.

Mas era preciso primeiro abrir meus olhos para depois apreciar o desabrochar das flores. Foi só eu entender o que se passava comigo que a névoa se desfez da frente do jardim. Ali estava ele, bem na minha frente. Ali onde sempre esteve. Mas, agora, sim, eu podia novamente caminhar por entre as flores, cheirar, colher as que eu me atrevesse. Assim estou fazendo. E a cesta está transbordando.

p.s. perguntar-se sempre: “Por quê eu quero criar isto?” Untitled-1

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