A estante de livros. Tão usada, tão torta de tantos livros já carregados, quase como se arrastados pelo chão de um deserto por uma mãe faminta. A estante sua. A estante cansa, treme e balança, pois sustenta o peso de histórias, de memórias, e páginas e mais páginas manchadas de tinta.

A estante de livros observou gerações de famílias. Viu os filhos escalando o sofá, crescendo, parando de brincar, bebendo, brigando, formando e indo embora. Viu mães chorando, pais traindo e irmãos se descobrindo sob luzes apagadas. Dali ela assistiu ao entardecer da vida: caducando e envelhecendo os pobres moradores da casa.

A estante é uma boca cheia impedida de falar. Carrega em si os segredos das vidas que um dia caminharam pela sala de estar. Do eco do bebê no berço ao som de ninar, ao suspiro final dele mesmo, já velho. Quanto pesar. Tanto viu que descobriu, por si só, o sentido da vida. Mas é uma cria muda, que só contempla, só existe. Não lhe cabe a função de compartilhar.

A estante prova serventia mesmo torta, mesmo velha, mesmo exausta. Quando enfim se desfazer será descartada imediatamente no lixo. Mas levará consigo uma história bonita, de quem olhou, de quem cuidou. Alguém que, só por ali estar, mostrou seu lugar.
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