Outro dia, eu me pus, nu, de frente para o espelho e coloquei um vestido. Não era bem um vestido, mas um lençol, que amarrado de tal forma ganhava um ar glamouroso. Virei prum lado, virei pro outro e parei para me admirar. Que estranho me ver desta forma. Eu nunca pensei em me travestir na vida. Não tenho vontade. Inclusive eu até ouvia “para de pôr toalha na cabeça, guri, tu não é menina” quando mais pequeno.

Mas vesti a peça, dita tão “aversiva” para o gênero masculino, e percebi que dentro ou fora dela, eu continuei o mesmo. Nu ou coberto, o que mudava era a recepção da temperatura pela minha pele, nada mais. Minha orientação sexual não se redefiniu, tampouco saí dali me considerando mulher.  Pensei comigo: “O que é isto além de um pedaço de pano?”

O ser está muito além dos tecidos, das cores, das estampas. Eu escolho usar determinadas roupas para refletir como sou por dentro, como eu penso, como me sinto. Mas o vestido me fez sentir desfigurado por um instante. Não pertencente. Um estranho. Até que eu reconheci em meus olhos o meu verdadeiro ser. Ele continuava lá. Por trás dos olhos, embaixo da pele, fluindo pelas minhas veias. Intrínseco em mim.

O meu verdadeiro ser não gostou de estar de vestido. Ele sente-se melhor representado com um terninho de brechó. Até sussurrou: “Tira isso, pelo amor de Deus”, quando se viu. Mas o ser poderia ter gostado do vestido. Poderia ter dito: “Até que enfim, este sim sou eu!”. É esse o ponto. É importante saber: há pessoas que se sentem confortáveis usando tecidos que não nos convém. Há seres que preferem vestidos. E há seres que preferem ternos. Independente do gênero que habitam.

Ao me analisar, percebi que não podemos aprisionar estas pessoas nas roupas que não querem usar. Isso sufoca o ser. E mesmo que o mundo repita: “se este pedaço de pano é colorido, é pra um”. “Se menor é pra outro”. “Quando é estampado é chamativo, vulgar”. “Quando é negro fica sério demais, parece que está de luto”. Devemos olhar para o espelho, para o fundo de nós mesmos, e escolher o que os seres pedem.

Você já parou para se ouvir?

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