Mesmo tendo escrito apenas três livros, Oprah Gail Winfrey vendeu milhões. Considerada uma revolucionária por transformar romances de sucesso limitado em grandes best-sellers, essa mulher possui uma carreira que há meses me desperta curiosidade. Por isso eu escolhi o seu imenso poder e influência dentro da literatura nos EUA como tema desta pesquisa. Sou fascinado pelo império de Oprah.

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Através de pesquisas em livros, matérias publicadas em jornais e revistas, entrevistas dadas por ela e episódios do programa “The Oprah Winfrey Show”, tentei desvendar as razões que tornaram-na tão amada pelo povo norte-americano. Procurei entender, ainda, qual a real diferença cultural que ela causou ao apresentar a leitura a milhões de mulheres que não tinham esse hábito.

Será que depois de fazer tantos leitores, Oprah Winfrey é mesmo uma revolucionária? Ou apenas uma ótima vendedora?

O Sucesso

Em questão de números, Oprah é uma referência para comunicadores e livreiros do mundo todo. Por volta dos anos 2000, seu talk-show diurno “The Oprah Winfrey Show” (1986-2011) ia ao ar cinco vezes por semana, contava com um público de 44 milhões de telespectadores nos Estados Unidos e era transmitido para 145 países. A revista mensal “O, The Oprah Magazine”, que levava sua foto na capa em todas as edições, tinha 2,4 milhões de assinantes nos Estados Unidos e também era publicada na África do Sul. Sem amarras ou inibições, Oprah usou do talento como apresentadora para massacrar os talk-shows concorrentes e ser considerada pela mídia (Revista Time, Life e o canal de TV CNN), como uma das mulheres mais poderosas e influentes do mundo.

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Mas tal influência não é fruto apenas dos seus números. Ao tratar constantemente sobre temas como “Histórias de terror no cabeleireiro”, “Donas de casa prostitutas”, e “Mulheres alérgicas aos maridos”, Oprah atraia para seu programa uma audiência predominantemente feminina, que a reconhecia como uma modelo representacional:

“Como anfitriã, Winfrey combina a formação em jornalismo com o seu amor e desempenho, criando a personagem de uma compreensiva e acessível interlocutora. […] Notavelmente, Winfrey se identifica com os telespectadores, os acalma e junto deles compartilha surpresas e novas descobertas. Desta forma, ela se apresenta não como uma especialista informada, mas como uma testemunha-participante informada.” (Harris & Watson, 2007)

Essa ligação emocional indireta entre Oprah e seu público contribuiu, desde muito cedo, para que mulheres são só se identificassem, mas quisessem ser como ela. Ao assistir as reprises do “The Oprah Winfrey Show”, notamos já nas primeiras transmissões, que o discurso de Oprah se resume a: “Vocês vão longe, garotas!” e “Vocês podem também!”. Com o sucesso da apresentadora aumentando, essa proximidade na linguagem provocou uma onda de consumismo desenfreado, que ainda hoje é mundialmente conhecida como o “Efeito Oprah”.

O “Efeito Oprah”

Bastava que Oprah mencionasse uma marca no programa, que as mulheres do país inteiro queriam adquiri-la no dia seguinte. Foi em decorrência dessa adoração que quando a revista “O, The Oprah Magazine” surgiu, em abril de 2000, uma das colunas de maior sucesso era chamada “Cinco coisas que Oprah adora”, que posteriormente virou “As coisas favoritas de Oprah”. Era uma lista publicada mensalmente, onde havia os livros, as frutas, roupas e demais produtos que a apresentadora tinha por preferência. As empresas, que tinham a sorte de ter os produtos selecionados, experimentavam uma avalanche de encomendas acima de qualquer padrão comercial.

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Revista “O” de Janeiro de 2014 – edição África do Sul

“Afinal, Winfrey não simplesmente transformou seus espectadores em autodesignados “amigos”; muito pelo contrário, no processo de construir um relacionamento com seu público, ela transformou-nos em consumidores leais. ” (Harris & Watson, 2007)

Mas ao longo da carreira, Oprah nunca se referia ao público dessa forma. Jamais consumidores. Eram amigos, colegas, admiradores. E em 1996, quando o “Efeito Oprah” começava a tomar forma, ela carinhosamente nomeou e massa que a acompanhava todos os dias na tevê, de leitores.

O maior clube de leitura do mundo

“Há alguns anos que a comunidade literária norte-americana já sabe que só existem dois caminhos para um best-seller instantâneo: ser elogiado pela crítica do New York Times, ou ser indicado como “livro do mês” no Clube de Leitura da apresentadora Oprah Winfrey.” (Estadão)

“The Oprah’s Book Club” (Clube do livro da Oprah, em português) era um quadro do programa da Oprah que durou de 1996 a 2002, no qual livros comuns, de autores comuns foram transformados em best-sellers. Todos os meses, ela indicava um romance que gostava, dava ao público um mês para ler e como já era de se esperar, o livro entrava na mira do consumo viral. Livros como “O Diário de Sibyl Danforth”, de Chris Bohjalian, pularam de 100 mil para 1,6 milhão de exemplares vendidos, com uma simples menção da apresentadora.

 “Você precisava dar um jeito do seu livro parar nos peitos da Oprah para ele virar um best-seller. A regra do nosso agente era a seguinte: Se ela segura no colo, você entra na lista dos mais vendidos em duas semanas. Se segura na altura da cintura, você chega lá em uma semana. Se ela aperta contra o peito, você vai chegar ao primeiro lugar.” (Sabol para Kelley, 2010).

O clube do livro era famoso por persuadir aqueles que assistiam aos programas – normalmente não muito fãs de leitura – a ler, o que revolucionou a cultura em milhões de casas dentro e fora da américa. Quando ela recomendou a obra de Toni Morrison, A Canção de Salomão, por exemplo, o livro vendeu em três meses mais do que vendera em 20 anos de publicação.

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Oprah e Toni Morrison, autora de “A canção de Salomão” durante programa exibido em 1996.

Não é à toa que quando o Clube da leitura completou um ano, Oprah tenha ganhado o apelido de “Midas do pelotão intermediário”, por fazer sucessos, que eram limitados, esgotarem nas prateleiras. Só em 1994 ela vendeu 130 milhões de dólares em livros, ou melhor, mais de 12 milhões de títulos de ficção contemporânea. Gênero que, até então, não vendia mais do que alguns milhares de exemplares por ano nos EUA. Por isso é justo dizer que quando Oprah ligou para Jacquelyn Mitchard, a autora de Nas Profundezas de um Mar Sem Fim, a convidando para que fosse a primeira autora do clube, não mentiu ao presunçosamente afirmar: “Vamos criar o maior clube de leitura do mundo!”.

Conclusão

Considerando os números, pode-se dizer que Oprah Winfrey movimentou os lucros da indústria literária nos EUA. E eu concordo que é por causa dela que muitos americanos, em sua maioria mulheres, tenham começado a ler. Mas considerando que os livros indicados refletiam interesses da apresentadora – sempre enredos semelhantes e do mesmo gênero –, eu acho que o público que adquiriu esse hábito não vivia no mundo real, mas dentro do mundo de Oprah.

Eu concluo, portanto, que a grande influência de Oprah teve um impacto muito maior nos bolsos do povo americano, que nas mentes. Pois, geralmente, aqueles que seguiam seus passos não liam porque queriam adquirir conhecimento. Mas sim porque alimentavam, a cada livro, o sonho de ser como ela.

Fontes

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