Juntei os pedaços, respirei fundo e refiz o mesmo caminho de tantas outras vezes. A mesma livraria na esquina, os mesmos portões das casas vizinhas, a mesma construção há meses inacabada. Mas, apesar das semelhanças pelas ruas, tudo mudou. Aqui dentro. Agora há uma falta sem nome nem descrição que só quem sente sabe.

Chamo seu nome e aguardo impaciente. Numa mão, o coração. Na outra, uma caixa com tudo o que é teu e ficara guardado lá em casa. A touca, as panelas, até a camisa ainda úmida da máquina. Chamo de novo, nada. A vizinha aparece, pergunta o que foi e eu explico. “Ele não tá?”. “Deve ter saído, daqui a pouco chega”, ela reponde.

Sento num canto, abro a caixa e contemplo os restos de você. Como bem me lembro, essa não é a primeira caixa que te entrego. Tiveram natais, aniversários e até brigas que antecederam caixinhas. Você abria, sorria, pulava, me beijava a cada nova surpresa. Eu nem sempre acertei os presentes, se é que acertei alguma vez, mas o gesto rendia um sorriso. Então valia.

Escuto um barulho na porta e levanto. Aí está você, sem óculos, usando a calça e moletom que, ontem mesmo, me emprestou para dormir. Nos braços esticados, pela primeira vez, não há expectativa de abraço. Apenas outra caixa fechada, amassada, mais leve que a minha, mas ao mesmo tempo tão pesada, que até dói pra carregar.

Então trocamos os presentes que já não são novidade pra ninguém. Trocamos, sem tocar. Sem olhar. Sem sorrir. Sem beijar. Só trocamos. Cada um leva o seu, vira de costas e ruma de volta à própria vida, como se tal encontro jamais tivesse acontecido. Queria que fosse simples assim. Mas ao abrir a minha, um metro adiante, vejo e relembro: as minhas meias que você amava usar, nossas fotos no ônibus da faculdade e o livro “Não Matem as Flores”, que te emprestei, marcado na metade.

A história do livro não foi a única que ficou inacabada. Há um seriado, um plano de viagem, uma lista de coisas que completaríamos de um jeito só nosso. Agora, para sempre, metas incompletas. Espero que tua falta me ensine a ser mais homem, mais maduro, uma pessoa melhor. Espero que, nesta caixa em minhas mãos, eu encontre os meus restos também. Só assim para reconstruir e relembrar quem eu era antes de me perder dentro de você.

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