Outro dia, eu e uma amiga discutíamos sobre a crise no jornalismo enquanto tomávamos um café. Ela, colunista de um jornal diário, conquistou uma legião de leitores que acompanha seus textos há mais de 20 anos. Perguntei se caso fosse demitida, ela teria algum plano para manter os leitores através de um site ou blog. Mas ela deu de ombros e me respondeu: “Não faço ideia. Prefiro não sofrer por antecipação”.

Realmente, de nada adianta sofrer. Ser competente, esforçada, reconhecida ou ter 30 anos de redação, já não é garantia de nada no jornalismo. Não depende mais dela. Profissão sólida virou utopia. É o caso de Luis Fernando Veríssimo, que foi colunista do Zero por 40 anos: demitido. Ou Ricardo Kotcho, que trabalhou em redações desde a adolescência. Nem imaginava que aos 70 ele se veria, pela primeira vez, desempregado.

Redações que antes continham 170 jornalistas, hoje se sustentam com 80. É um corte de profissionais que mais parece a poda dos galhos mais velhos. O que já floresceu, deu bons frutos e “passou da hora” vai pro saco. Já os verdes – sem experiência – custam menos. É nessa galera que decidem investir. Sou jovem, mas fico desapontadíssimo com a nossa realidade. Pois, como disse Eliane Brum: “nunca se precisou tanto de um jornalismo crítico na imprensa”. Pincipalmente nesse momento que o Brasil inventou a democracia sem o povo.

E de nada adianta essa turma mandar currículo. Eles provavelmente já conhecem ou são bem conhecidos pelos possíveis empregadores. Eles já têm os portfólios espalhados em colunas, cartas de recomendação nas páginas dos livros e provas do próprio talento em milhares de jornais com circulação nacional. E ainda assim, não há a garantia da profissão sólida. Até parece piada.

Eu até sonho em entrar numa redação com gente há um, dez, trinta anos na casa. Acho fundamental essa troca de experiências entre gerações. Mas, pela lógica atual, a perspectiva é dura para quem acabou de sair da faculdade. Para chegar lá na frente é preciso, primeiro, ser tão bom quanto esses caras e receber a metade da metade. Aí, após muitos anos, só se ficarmos bons mesmo, nos chamam na mesa do chefe para anunciar a nossa demissão. Ô caos.

O jeito é torcer para que valorizem os bons jornalistas, não só a mão de obra barata. E reafirmando Eliane Brum, torcer para que “entendam que um enfraquecimento da imprensa não é a melhor solução nesse momento tão delicado e decisivo do país”. O jornalismo de qualidade não se aprende com uma faculdade. Se aprende com os anos de prática.

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