Hoje eu estou de mudança. Começou quando o seu Jorge, dono do Bar dos Anjos, me disse que eu já estava lá há tempo demais. Disse que eu devia procurar um outro lugar porque, às vezes, atrapalha. Os outros não gostam de ficar perto da gente. E a gente entende. Aí guardei meu travesseiro verde, a lata de salsicha e me mudei. Fui pra avenida procurar onde ficar.

Gosto da avenida porque é onde todo mundo passa. Todo o tipo de gente passa por lá, o dia inteiro. Eles correm pra todas as direções, sem parar e sem olhar. Acho que procuram pela felicidade, sei lá. Procuram em casas grandes, carros brilhantes e em coisas como sapatos e colares. Eu também procuro pela minha. E já encontrei, diversas vezes.

Na semana passada, por exemplo, eu subi numa árvore à beira do rio e apanhei umas goiabas. E quando já não sabia aonde ficar, o seu Jorge me deu o travesseiro verde que o filho dele não usava mais. Assim eu vou, de pouquinho a pouquinho, ficando mais feliz.

Acho que é mais fácil ser feliz assim do que tentar a felicidade querendo algo muito grande, que é difícil de alcançar. Eu sonho, sim, com um abraço de mãe, uma cama quente e um pratinho cheio de comida todos os dias. E quem não sonha alto? Só que eu tento um sorriso por dia pra, pelo menos, ter vontade de continuar a busca pelo que ainda está longe.

Só que hoje, pro meu azar, não é um daqueles dias. Comecei a procurar cedinho, depois chegou o meio dia junto com todos os tipos de gente grande. Eles passaram, passaram e passaram. Mas nem me viram, outra vez. Eu não te contei, mas o meu almoço depende de ser notado por eles. Então comi minha salsicha e me conformei. Sei que se eu tiver outra chance será amanhã.

Andei mais, fui ao centro e a noite chegou rápido. As pessoas foram sumindo. Avistei uma estátua de mármore da Virgem Maria de braços abertos e me aninhei como seu filho. Mas cometi um erro. Coisas assim acontecem nos dias não felizes. Antes de dormir, bebi um copo d’água naquele posto 24h, fiz xixi mas, ao retornar ao meu cantinho, o travesseiro verde havia sumido.

O pouquinho da minha felicidade foi roubada, pensei. Então ali me deitei, mesmo com fome e frio. A cabeça sobre o mármore já cansada de buscar por pequenos sorrisos. Esse não foi, nem de longe, um dia de sorrisos. Ao fechar os olhos, porém, eu senti o abraço de mãe que desejava. Senti o aroma de comida saindo do forno e os lençóis da minha cama me esquentando nos meus sonhos.

Eu perdi meu lugar seguro. Perdi meu travesseiro verde. Não consegui o que comer, nem que olhassem para mim. Se a minha vida dependesse desse dia, eu teria todos os motivos para desistir. Mas ao invés disso, prefiro pensar que só estou de mudança. E numa busca constante por um lugar aonde eu encontre a grande felicidade.

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