Ah, a cidade de São Paulo… é o odor do Rio Tietê, a beleza do Ibirapuera e o barulho das pessoas falando. Tudo ao mesmo tempo. Metrôs lotados, rostos bravos. Aquela constante sensação de pressa, de estarem atrasados. Quando um Braçonortense desce do avião, em meio ao caos, fica assustado.

Primeiro, por causa dos crimes. É assalto, violência, assassinato. No telejornal, eu lembro bem, tinham ônibus sendo incendiados. Muros de tijolos característicos, reforçados e pichados. Da janela do carro levantada ao máximo, porém, só vejo prédios, cinemas e teatros. Aquela infinidade de gigantes cercando o asfalto dos dois lados.

Com três e oitenta a menos no bolso, chego no hotel. É uma casinha azul bonita, alta, pintada com as cores do mar. Deixo as malas sobre a cama e desço correndo para almoçar. Animado, é claro, para comer, descansar um tiquinho e explorar. Mas que nada! O tempo de coçar e bocejar ficou lá atrás, em outro mundo! Pois aqui no restaurante, com os celulares na mão, tudo o que eles fazem é produzir e se preocupar. Aí o intervalo acaba e, sem pensar, voltam todos a trabalhar.

Quer saber? Dou de ombros. Esse ainda não sou eu. Não deu tempo de me conectar. Subo ao quarto, arrumo as roupas todas no armário e, muito cansado da viagem, deito e durmo até o dia terminar.

Me disseram que à noite a diversão começa a rolar.

O celular está no bolso de trás. Já no da frente, coloco meu dinheiro, as chaves e meia dúzia chicletes. Li num site que desse jeito não nos roubam. Deus salve a internet! Uns vinte cautelosos passos depois, eu sou só outro dentre as cem mil pessoas colorindo a Avenida Paulista. Só eu, sozinho, entre todos eles. E ainda assim me sinto importante, pois a cidade das oportunidades estica o corpo embaixo dos meus pés.

Começo a caminhar. Grupos de músicos e barraquinhas de cachorro quente são bem frequentes ao longo da calçada. Um senhor tocando violoncelo na frente do Shopping. Um casal dançando tango na faixa de pedestres. Crianças paradas aos pés dos pais, assistindo. Sorrisos. Cultura. Arte de todos os tipos avenida abaixo me distraindo do trânsito, dos restaurantes sofisticados e aluguéis absurdamente caros.

Até que não é tão mal.

Ninguém me vê. Ninguém se importa. É como se, de fato, eu caminhasse sozinho. Sou o único admirando as luzes, sentindo o odor, ouvindo o barulho. Os outros não vivem, só passam.  Tento me virar com as placas, pois ninguém tem muito tempo pra dar informações. Eles se esquivam, até como se o bandido fosse eu.

Quase na hora de voltar, então acontece. Eu esbarro nela. Uma moça ruiva que passava e não me viu.  Outra delas, tão comum quanto eu. Eu falo em voz alta e ela ouve minhas desculpas. Até para de andar por um instante, quase cedendo ao momento presente. Mas quase. Então, como se nada tivesse acontecido, a ruiva segue o próprio rumo e some de vista.

Sou o único em meio a cem mil. O único preocupado com o presente, em viver o aqui e agora. Os outros só querem saber do próximo segundo, da próxima refeição, da próxima reunião e em que horário que sai o próximo vagão. Apesar do fascínio, esse vício frenético não me encanta nem um pouco. Apesar de querer me destacar, não acho que valha a pena pirar. De nada adianta tentar, tentar, tentar e se esquecer de contemplar.

Vamos respirar um pouco, Paulistanos… Vamos respirar.

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