Tenho uma série de prazeres nada convencionais. Gosto de ouvir ópera italiana e samba brasileiro, tudo na mesma playlist; gosto de ver e rever filmes antigos de infância, de comer feijão com palitinhos japoneses, de calçar pantufas no verão, de cozinhar ouvindo entrevistas do Youtube, de conversar com mulheres mais velhas, de caminhar pela casa, em círculos, enquanto discuto em voz alta com os meus botões.

Mas também há uma série de prazeres comuns que eu não compartilho com as outras pessoas. Nunca gostei das músicas de Michael Jackson, Lady Gaga e Madonna, apesar de serem os papas do pop; não gosto de bacon, não danço por mais de duas horas em festas, não me vicio em seriados, não desejo “Parabéns” no Facebook com textos enormes e não me ressinto por isso.

Não há motivos para ressentimento. Há quem afirme, com todas as forças, que deveríamos nos desculpar pelos prazeres não convencionais. Nos dias de hoje, ouvir pop sem Gaga é um crime. Dizer que não vê Netflix rende a questão: “Nossa, de que mundo você é?!”, e fazer amizade com uma mulher de 50 anos é a fórmula certa para atrair olhares, comentários e achismos pra lá de ofensivos: “Será que ele está puxando o saco ou o quê?”.

O mais irritante é a discussão que gera um gosto pessoal. Basta você revelar uma paixão extravagante para o outro amarrar a cara, estufar o peito e te envenenar com uma crítica nociva. Crítica que, aliás, foi embasada em outro gosto pessoal indiscutível. O que então seria uma conversa saudável se torna uma batalha de verdades que, mesmo após muito debate, jamais entrará em consenso. Isso porque não existem duas experiências de vida exatamente iguais.

Mas acho que, no fundo, é isso que todos desejam. Querem que gostemos das mesmas séries, que tenhamos os mesmos candidatos, os mesmos pontos de vista, o mesmo prazer de beber cerveja sexta à noite ao invés de ficar em casa lendo um livro na cama. Não vejo graça nenhuma em viver a mesma vida que o outro. Senão eu não descobriria o prazer que é saborear um estrogonofe vegetariano, gargalhar com Steven Universe ou me barbear no banho. Certas coisas você não descobre sozinho. Tem que vir de outras pessoas com diferentes maneiras de ver o mundo.

Enfim, dado o recado. Vamos ser mais nós, sem perder o olhar para o outro. Acho importantíssimo valorizar nossos prazeres, por mais estranhos que sejam. No final do dia, são essas diferenças que determinam quem somos nós.

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