Querida J.K.Rowling,

escrevo de uma cidadezinha desconhecida no interior do Brasil. Neste lugar nós estamos tão fadados à isolação, que possivelmente esta carta jamais chegue até suas mãos, porém um sonho não seria um sonho sem esperança. E meu maior sonho é me corresponder com você de alguma forma.

Tenho medo de ser rude com as palavras. Ouvi dizer que britânicos são muito educados – ainda mais alguém com tamanha classe, postura e soberania como você –, portanto se eu estiver sendo indelicado quando me refiro à senhora usando “você”, perdoe-me, por favor.

Conheci seu trabalho em 2005, quando tinha apenas oito anos e li Harry Potter e a Pedra Filosofal pela primeira vez. Nessa região do meu país é por essa idade que aprendemos o ABC, então levei vários longos meses para terminar. Na noite que eu cheguei à ultima página e Harry voltou para a casa dos tios, meu mundo desmoronou. A cena daquele garotinho chorando agarrado ao travesseiro assustou muito os meus pais na época, tanto que me perguntaram o que havia de errado:

– Eu encontrei o meu lar – eu disse, soluçando. – Eu encontrei o meu lugar, minha Hogwarts, mas agora estou abandonado.

Aquela primeira história mudou a minha vida de modo tão colossal… tão gigantesco, que não pode ser descrito em palavras. Por causa do seu trabalho, hoje eu sou um adolescente que afirma ter desfrutado de uma infância. Uma infância feliz.

Cerca de um ano mais tarde, mamãe começou a estudar na escola de adultos para garantir um diploma de ensino médio concluído. Essa foi a minha primeira oportunidade de conhecer uma biblioteca, onde encontrei aconchego, amor, carinho e a chave para destrancar as portas do meu verdadeiro lar. Nas páginas amareladas dos livros, eu li biografias fictícias que narravam partes da minha história e conheci famílias imaginárias que me acolheram como seu próprio filho. Após muito vasculhar nessas prateleiras empoeiradas, esbarrei num pequeno e desgastado exemplar de Harry Potter e a Câmara Secreta.

Admito que com nove anos, Aragogue, a parede ensanguentada, e até mesmo Lucio Malfoy me proporcionaram alguns pesadelos – embora pareça uma acusação, este é só mais um agradecimento, entre inúmeros que você merece, por ser a mãe do corajoso Harry. Esses medos escondidos atrás de cada capítulo me ensinaram que se você acredita em alguma coisa de coração, nada pode feri-lo. Nem aranhas, coleguinhas malvados ou a irrevogável dor do luto. O amor pelos seus livros me ajudou a lidar com a angústia das piores fatalidades criadas em situações da vida real. Obrigado, J.K.Rowling.

Durante um discurso de formação que você fez em 2008, lembro que disse em um momento: “A vida é difícil e complicada, acima do controle total de qualquer um, e a humildade de reconhecer isso é o que vai permitir que você sobreviva a todos os revés”. Desde que li o seu primeiro livro, lamentei profundamente com o sétimo, ou quebrei minha cabeça com o nono, tenho levado essa frase como um paradigma de vida. E uso estas palavras todos os dias como um precioso mantra que conserva as minhas razões para viver.

Considerando meu passado, posso não ter conhecido todos os revés, mas reconheço que em metade da minha adolescência fui infeliz e isso machuca meu coração. Não sendo totalmente especifico, tenho apenas dezessete anos e não é muito. Nem mesmo perto. Mas ás vezes eu sinto como se já tivesse vivido mais que pessoas com o dobro da minha idade. Já presenciei tanta maldade, dor e horrores, que quando acordo pela manhã só de eu estar vivo, considero uma benção. Minha família e amigos são maravilhosos, mas de modo lamentável não é assim com cada individuo. Sinto gratidão por ainda haver no mundo alguém bondoso como você, capaz de ajudar as pessoas com a instituição Lumus, Gingerbread, Volant, entre outras. Não é um exagero dizer que no dia que você se for – por Deus, que demore uma eternidade –, um anjo deixará de caminhar entre nós.

Senhora J.K.Rowling, provavelmente nunca chegaremos a conversar um com o outro. Provavelmente, como acontece com muitos de seus fãs, nunca terei o prazer de agradecê-la pessoalmente. Mas já é um prazer correr os olhos pelo Google News alguns minutos por dia e saber que você está bem. É um prazer maior ainda folhear nossas edições de seus livros e encontrar o abrigo que, em dias turbulentos, não encontramos dentro de nossa própria casa. Não escrevo isso por mim, mas por todos os seus leitores. Foi uma honra ter acesso ao seu mundo imaginário e levarei isso para o resto da minha vida.

Uma rápida observação sobre o final de Harry Potter: eu sempre soube que aquele dia chegaria e tinha certeza que no final haveria lágrimas. O que eu nunca sequer pensei, era que ao ler “All was well.”, também haveria tanta união e tanta dor. O Expresso de Hogwarts deu partida, virou a curva e levou meu coração junto com ele. Parte de mim se foi com Harry Potter e jamais irá voltar. Devo agradecê-la por isso mais que por qualquer outra coisa. Agora uma parte de mim vive feliz e protegida junto do professor Neville e da diretora McGonagall para todo o sempre no lugar que, talvez, só não é mais seguro que Gringots – ou quase isso, uma vez que não conheço o futuro da história.

Mesmo acorrentado a esse fato, posso afirmar que no futuro real farei absolutamente tudo o que estiver ao meu alcance pela oportunidade de, algum dia, meus filhos se aventurarem pelos mágicos terrenos de Hogwarts. Não minto ao dizer que meu maior tesouro são as suas publicações e espero, honestamente, com todo o meu carinho, que essa herança literária deixada por você enriqueça muitas e muitas mentes no decorrer da história universal. Por causa de Harry eu pude visitar lugares incríveis e conhecer pessoas fantásticas, ainda que estivesse trancado em casa num dia chuvoso.

A remota chance de J.K.Rowling ler esta carta abre um sorriso em meu rosto e faz minha alma suspirar. Você está ai? Espero que sim. Espero que compreenda o quanto significa para mim. Ah, que magnifica pessoa você é, uma heroína! Eu acredito no seu potencial humano e não só como uma esplêndida escritora. Você pode mudar e salvar tantas vidas! Essa é a qualidade que mais valorizo na belíssima mulher que a mídia me apresentou. Sua capacidade de fazer o melhor da forma que tiver vontade. Arrisco-me a dizer que Anne Rowling seria a mãe mais orgulhosa, se já não for, esteja onde estiver.

É o meu dever finalizar esta carta agora, senão me cobrarão os olhos da cara. Escreverei novamente quando tiver algo para contar, ou me sentir na vontade de agradecê-la mais uma vez pela sua colaboração fundamental. Obrigado de coração por motivar tantos sorrisos e por me ajudar a construir a felicidade, todos os dias, com cada reflexão e cada pequeno detalhe.

Apresentando os meus votos de elevada estima e consideração,
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Uma nota sobre esta carta: no dia 09 de dezembro de 2014, duas cópias foram traduzidas e enviadas a dois endereços de J.K: em Nova Iorque e em Londres. Três meses depois, no dia 4 de fevereiro de 2015, recebi uma resposta de J.K.Rowling na minha caixa do correio agradecendo pelo meu gesto atencioso e afirmando que cartas como a minha realmente “fazem o seu dia”. Curiosamente, uma semana mais tarde chegou a resposta da carta de Nova Iorque com uma mensagem da editora da Bloomsbury, Linda H. Schenker, lamentando que J.K.Rowling não responde cartas, pois recebe demais.

 

 

 

Endereços para onde enviei as cartas:

J.K. Rowling, Christopher Little Literary Agency, Eel Brooks Studios, 125 Moore Park Road, London SW6 4PS, UK

J.K. Rowling, Arthur A. Levine Books, 557 Broadway, New York, NY 10012.

Escreva a sua em letra de forma e legível pra chegar em segurança! ^^ 

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