Texto adaptado de um autor que desconheço.

De repente eu me peguei parado em meio à avenida. Já era madrugada e ninguém ia passar por ali tão cedo. A umidade vinda das nuvens era só um chuvisco, então eu não precisava de fato escapar. Ao meu redor, os postes de energia me serviam de bússola, capazes de me guiar à minha casa, pelo caminho de volta, caso quisesse voltar. De volta pra “casa”. Uma palavra engraçada. Não “lar”, apenas uma casa.

A luz do poste então se extinguiu e o caminho, já pouco claro, se apagou diante dos meus pés. Naquele momento eu percebi que a escuridão tomara posse de tudo o que ELES antes chamavam de “eu”.

As minhas pernas tremeram e cederam. Eu estava fraco, no escuro, de joelhos no chão. A chuva no asfalto aumentou, tendia a ficar mais grossa a cada minuto. Respirei fundo e percebi que eu não sabia o que sentir. O pouco que eu compreendia de mim não me dizia nada que eu arriscasse aceitar. Como se eu já estivesse morto há tanto tempo, tão vazio há tanto tempo, cego pela verdade inacreditavelmente triste. Mas o estranho é que eu não estava triste, afinal. E eu me encontrei, pela primeira vez, vivendo este sentimento vago, inexistente.

Lágrimas começaram a escorrer pela minha bochecha. Leves e quentes, apesar da chuva. Elas eram tão significativas, tão verdadeiras. Acho que, talvez, as lágrimas mais reais que eu larguei no mundo em anos. Acreditei nas lágrimas, porque finalmente compreendi que eu vivia um nada, dentro de um mundo falso que eu criara para os satisfazer.

Meus joelhos não aguentaram a dura realidade e despenquei no chão, largando-me de todas as antigas forças. Ali permaneci. Minhas pálpebras cerraram. Algum tempo depois, não sei dizer quanto, senti alguém tocar de leve o meu ombro e abri os olhos. A silhueta de um senhor, desenhada pela lua, me pedia para levantar. Ele estendeu a mão e perguntou se podia me abraçar.

Eu confesso que sorri. Talvez, o sorriso mais sincero que dei na minha vida toda, mesmo que segurado por um único lado da boca. Mais ainda, porque talvez fora o abraço mais sincero que recebi. De um estranho, mesmo ali. A gente não se conhecia, mas ele me passou, através do abraço, o que era novo e inexplicável. O conforto de uma vida, a clareza de uma dúvida, o sentimento de um ser. Ele me devolveu a mim. Foi quando finalmente percebi a razão de eu estar vivendo num mundo vago, pois não era realmente no meu mundo. Este mundo fora moldado para eu viver: “Amigos, popularidade, amor”.

ELES me disseram aonde ir, o que fazer e como fazer, quem ser, o que falar, como vestir. ELES me roubaram de mim, pois não queriam quem eu era. Só queriam quem imaginavam que eu fosse. Como eles me fizeram ser. E foi preciso o abraço do estranho para me devolver a mim. Alguém que eu nunca vi e nunca mais veria, mas que fez mais pela minha vida do que os que diziam viver nela. Eu serei eternamente grato por me devolverem a mim. Mas, principalmente, por eu ter voltado a mim. De onde nunca deveria ter saído.

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