Era só mais um dia de trabalho. Cheguei lá pelas 8h como de costume, sentei no meu lugar e chequei a caixa de entrada do e-mail: vazia. Abri a pauta, onde anotava os meus afazeres e comecei a escrever um texto do blog com o tema: 5 lugares para passar a lua de mel.

Só de abrir o documento de texto, eu sorri. Ah, como eu amo publicidade! Já estava trabalhando em agência há três meses e ainda me recusava a chamar aquilo de trabalho. Não sei se era o ambiente aconchegante, as pessoas inteligentes ou o café mais gostoso do mundo. Tudo parecia com um pedaço do céu. Eu visitava o paraíso todas as manhãs para realizar o meu sonho: trabalhar escrevendo.

Era como se, por algumas horas, eu pudesse esquecer meus problemas. Eu entrava pela porta da agência, mas o peso dos sapatos, a dor na coluna e as demais preocupações ficavam do lado de fora. Lá dentro não havia medo, desespero, crime e caos. Um universo separado do mundo, em que eu aprendia a ser positivo, a ressaltar a beleza da vida – e das marcas – e a escrever cada vez melhor.

No começo, eu nem sonhara em trabalhar com publicidade. Pelo menos não até alguns meses antes, quando comecei a ler sobre marketing digital. Eu achava que iria entrar numa redação de jornal, tentar a vida de repórter e continuar assim até sabe-se lá quando. Mas nós nunca sabemos, né? Pelo menos não eu. Minhas certezas nunca prevaleceram por tempo demais.

Pesquisei os cinco lugares mais lindos e anotei o nome de dois para visitar (um dia, quem sabe). Pronto, lá estavam as cidades mais românticas do Brasil. Belos destinos para uma lua de mel. Salvei quatro imagens, mas antes de encontrar a última, surgiu um desastre no canto da tela: uma foto da barragem de Samarco, que rompeu em 5 de novembro de 2015.

Num impulso de curiosidade, abri a matéria da imagem. Os lugares mais “charmosos, românticos e fofos”, como eu costumava escrever, caíram por terra no momento em que comecei a ler. Vi pessoas desesperadas chorando, sofrendo, clamando por ajuda. Vi casas derrubadas e vidas devastadas. Mesmo do céu, senti uma pontada de dor que não soube explicar e, pela primeira vez, enxerguei além das nuvens brancas que estava acostumado.

Enquanto jornalistas contavam histórias sobre falta de água, casos de fome e investigavam as origens das tragédias, lá estava eu: pesquisando sobre cidades para passar a lua de mel, escrevendo sobre looks, Netflix e personagens de novela. Senti como se fosse um pássaro sobrevoando os escombros de um grande desastre. Imune à lama e ao sangue alheio, e presenciando o sofrimento de todos sem ajudar ninguém. Quando eu senti a necessidade de mergulhar… percebi que sou um jornalista, não um publicitário.

Isso aconteceu numa quarta-feira, o dia em que pedi demissão.

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